Tuesday, March 27, 2012

Global Citizen Indeed - um ensaio biografico

Eh dificil para algumas pessoas compreenderem as razoes que me levaram a sair do conforto da minha vida em Recife. Para poder entender, eh preciso olhar mais profundamente, dentro do meu ser, e ver que a vida foi moldando uma cidada (com til, nao tenho acentos no meu computador) global desde sempre.
Meu pai era Holandes, nascido na Indonesia antes da II Guerra Mundial, que na epoca, era colonia holandesa. Depois da Guerra, a familia do meu pai se viu obrigada a sair da Indonesia para viver na Motherland, na Patria nunca antes vista, a Holanda. Tendo vivido toda a sua vida, ate entao, nos tropicos, meu pai nunca se habituou a vida fria e impessoal da Holanda. Sentia que aquele nao era o seu lugar, mas sabia que jamais poderia voltar a terra onde estava o seu coracao. Entao resolveu buscar outro pais para viver. Um pais tropical, onde haveriam as mesmas frutas que ele comia na Indonesia. Onde haveriam as mesmas arvores. O mesmo clima. Surgiu uma oportunidade no Brasil, que estava em busca de mao-de-obra especializada na area de engenharia. Meu pai, com muitos cursos de torneiro, caldereiro, etc. foi ao Brasil com o sonho de comecar uma nova vida. Uma vida nos tropicos. Foi mandado para diversos trabalhos diferentes em Sao Paulo, Rio Grande do Sul, mas foi em Pernambuco que ele encontrou o seu lugar. Anos mais tarde, conheceu a minha mae, brasileira, alagoana de nascenca, mas pernambucana de todo o coracao. Casaram, tiveram uma filha, minha irma Lucia, e anos mais tarde, mudaram-se para os Estados Unidos, onde moravam alguns dos irmaos e irmas do meu pai. Eles escreviam cartas falando das oportunidades de trabalho na California, estado muito desenvolvido na Terra do Tio Sam. Atraidos pelo progresso e perspectiva de uma vida melhor, a familia se mudou para Los Angeles. Naquela epoca, eles nem precisavam de visto para entrar no pais. Sairam do Brasil ja com visto de residentes. Durante o tempo que moravam nos Estados Unidos, eu nasci.

Vejamos o contexto geografico onde passei a minha infancia. Los Angeles eh uma cidade que fica a 4h da fronteira com o Mexico. Isso aliado a proximidade do Oceano Pacifico fez com que a California se tornasse um estado que sempre atraiu estrangeiros. Em sua grande maioria, latinos e asiaticos. A minha mae trabalhava em uma fabrica que produzia pecas para aparelhos ortodonticos, e todas as pessoas com quem ela trabalhava eram latinos. A minha mae aprendeu a falar espanhol antes de aprender ingles, mesmo morando nos Estados Unidos. Mais adiante, a minha irma comecou a trabalhar no departamento de exportacoes daquela fabrica, e todos que trabalhavam com ela, tambem eram estrangeiros. Resultado: praticamente todas as pessoas que conheciamos eram estrangeiros. Nao necessariamente brasileiros. Todos vivendo legalmente nos Estados Unidos e vivendo o "sonho americano".  

Na escola que eu estudava, quase todos os meus colegas de sala eram filhos de estrangeiros. Muitos eram filhos de latinos, mas tinha tambem filhos de egipcios, marroquinos e irlandeses. Olhando para tras hoje vejo que minha vida sempre foi cercada de gente de toda parte.

Uma das coisas que eu mais gostava de fazer quando eu era pequena era estudar o mapa mundi. Meu pai tinha um mapa bem grande, ele o colocava no chao da sala, e nos ficavamos explorando o mapa, vendo onde eram os paises, quais eram suas capitais, como eram suas bandeiras... Eu fazia tambem o mesmo no meu quarto, onde eu tinha um globo na minha escrivaninha. Adorava girar o globo, apontar para um lugar e ver que pais era. Ficava tracando a rota de viagem do meu pai para chegar ate onde estavamos. Ouvia as historias que meu pai contava sobre sua infancia na Indonesia, de sua vida na Holanda, no Brasil... Eu "viajava" com ele a cada historia.

Quando nos mudamos para o Brasil, eu comecei a entrar em conflito comigo mesma. Se por um lado, eu era americana, por ter nascido la, por outro lado tambem era brasileira. Na escola, sentia que todos me olhavam, falavam de mim. Eu era esquisita. Era "A Americana". Eu detestava esse rotulo. Isso porque naquela idade, eu queria mesmo era ser aceita, e ser diferente era a pior coisa do mundo para mim. Passei a imitar o maximo que eu podia o que era ser Pernambucano. Eu precisava me enquadrar. E comecei a negar os Estados Unidos.

Anos mais tarde, ja crescida e muito bem adaptada (e sem negar os Estados Unidos), passei a ensinar ingles. Tudo comecou meio que como um hobby. Eu dava aulas na epoca somente para ter um pouco de dinheiro para mim. Eu nao ia ser professora, eu ia ser arquiteta. Mas ao longo do tempo fui me apaixonando pela profissao, e fui me envolvendo cada vez mais com o ensino. Viajei a Inglaterra duas vezes, fiz varias amizades que se espalharam mundo afora. Alguns dos meus amigos diziam que nao me viam vivendo em Recife por toda a minha vida. Eu nem pensava no que significava isso. Na verdade, eu estava tao envolvida com a minha jovem vida, que eu nao pensava em sair de Recife, que dira do Brasil. Os anos passaram, e comecei a perceber que haviam muitas coisas em que eu me enquadrava no Brasil, mas que ao mesmo tempo haviam muitas outras coisas em que eu pensava ou agia diferente. Isso comecou a me incomodar. E comecei a pensar que apesar de amar o Brasil como o meu lar, eu precisava de mais. Precisava ver o mundo. Precisava vivenciar outras culturas e outros lugares. Em alguns momentos me sentia uma estrangeira dentro do meu proprio universo. Entao decidi. Era hora de partir.

Hoje sei que tudo o que vivenciei me fez assim. Existem estudos que mostram que pessoas que nascerem e foram criados expostos a diversas culturas diferentes durante os anos de sua formacao, sentem essa mesma inquietude e essa mesma identidade mundial, se sentindo em casa, mas ao mesmo tempo um estranho. Sao os Third Culture Kids ou Cross-Culture Kids (Criancas ou Filhos de uma Terceira Cultura ou de Pais de Diferentes Culturas). Trabalhando como professora internacional, tenho contato com varias pessoas que vivenciaram o mesmo que eu. Grande parte dos meus colegas de trabalho, se identificam com os mesmos sentimentos que eu tenho com relacao ao Brasil, Estados Unidos, e por que nao incluir (apesar de nunca ter vivido la) a Holanda e a Indonesia. Querendo ou nao, todas essas culturas fazem parte do meu ser. Fazem parte do meu mundo. E por isso que sou um pouco daqui, um pouco dali e um pouco de todo canto.

Hoje me sinto feliz em saber que vivo em um mundo onde a globalizacao junto com a tecnologia me permitem explorar essa diversidade cultural, e que me ajudam a me sentir a vontade neste mundo. Como dizia o lema de uma das escolas onde trabalhei: "at home in the world" (a vontade no mundo). Feliz por poder trabalhar fazendo algo que eu gosto e que me da a oportunidade de conhecer outros lugares e exercer a minha cidadania global. :-)

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